Que Escola para o Século XXI?


Michael Wesch é professor de Antropologia Cultural no Kansas, Estados Unidos. Embora seja ainda bastante jovem (nasceu em 1975), Wesch tornou-se famoso a partir da análise que faz da cultura actual e do impacto que as novas tecnologias, nomeadamente os media, têm sobre a forma como nos relacionamos e como construímos a nossa identidade.

Nesta análise iremos abordar quatro vídeos publicados por Wesch:

O primeiro vídeo (The Machine is Us/ing Us) mostra-nos a evolução da Web desde os primórdios do html até à situação presente, na qual a máquina somos nós: ao clicar num link, ao interagir na internet, tornamo-nos parte da engrenagem. O hipertexto não é apenas a criação de uma ligação entre textos; a internet não é apenas um conjunto de ligações entre textos: a internet conecta pessoas, leva-as a fazer negócios, a comunicar e interagir com outros. Por isso, conclui o autor, teremos de repensar os direitos de autor, a ética e a estética, a governação, a família e o amor, a identidade: quem somos nós?





O segundo vídeo (The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity) mostra-nos Michael Welsch fazendo uma comparação entre as perspectivas de Aldous Huxley e Orwell, acrescentando-lhes Postman para demonstrar que estamos muito longe dos cenários apocalípticos que tinham sido previstos por esses escritores.Uma das ideias centrais desta comunicação é que os media não são apenas instrumentos de comunicação; muito para lá disso, eles são parte integrante da comunicação no sentido em que a sua mudança implica igualmente mudança da comunicação humana. Marshall McLuhan já o tinha dito: “we shape our tools, and thereafter our tools shape us”. A anomia típica das grandes cidades também pode encontrar-se na Web. A anomia é o estado de ânimo do indivíduo que não obedece a quaisquer normas sociais ou à sociedade que tende para a desagregação das suas próprias normas. Durkheim criou este conceito em 1897, na obra “Le Suicide”, para caracterizar o estado de confusão do indivíduo na sociedade moderna, estado esse que provoca irritação e desgosto e levaria ao aumento das tendências suicidárias na época de Durkheim. Wesch faz o paralelismo entre este cidadão moderno confuso e desagregado da sua própria sociedade com o cidadão virtual. O cidadão moderno viu-se transformado num cidadão vulgar, insignificante no meio das moles humanas das grandes metrópoles, e a sua migração para os subúrbios não só não resolveu o problema como o agravou, pois a auto-estrada passou a ser a sua ligação ao “mundo”, tal como a televisão passou a ser a sua ligação à realidade. Mas essa ligação estabelecida através da televisão é unidireccional: a única forma de se fazer ver é estar do lado de lá, “aparecer” na televisão, alcançar os míticos quinze minutos de fama. Por isso é tão importante aparecer no American Idol (nem que se seja um imbecil)





Actualmente, verificam-se duas tendências: por um lado, a auto-afirmação em detrimento da participação cívica; por outro, a fragmentação das crenças e dos interesses individuais.Nesta incursão filosófica pela análise das relações pessoais, Wesch faz notar que é pela relação com o Outro que nos conhecemos. Ora, se os novos media criam novas formas de nos relacionarmos com os outros, então também a forma como nos conhecemos a nós própris será alterada. E isso tem implicações sobre as noções de identidade e autenticidade.Verifica-se, então, a implosão do contexto, isto é, já não comunicamos simplesmente com outro(s) mas com um engenho, uma máquina (a câmara, o computador, o youtube ou o blogue ou o twitter ou o facebook) que são os meios pelos quais chegamos ao Outro, se é que eles existe ou nos verá. Não existe contexto: sou eu e um Outro imaginário que está por detrás da máquina.Outro aspecto interessante que se verifica na rede é o exacerbar do Eu: o indivíduo filma-se para se ver a si próprio, escreve par si próprio e contenta-se em ver aquilo que filmou e aquilo que escreveu para si mesmo.O facto de nos podermos esconder atrás de um nick (pseudónimo) aliado à distância física que protege as pessoas leva-as a exacerbar igualmente os sentimentos de ódio, com ofensas gratuitas e inflamadas sobre o Outro.Estamos, então, perante uma inversão cultural: paradoxalmente, as pessoas criam comunidades virtuais nas quais dão a conhecer aspectos da sua identidade que não revelam, sequer, aos familiares, como se houvesse mais autenticidade neste anonimato hiper-mediático do que na vida real.Alguns vídeos / comportamentos podem tornar-se virais, como o vídeo “free hugs” que se tornou popular nos mais diversos países, levando desconhecidos para a rua para se abraçarem mutuamente. Qual é, então, o interesse destes comportamentos? Eles mostram-nos como indivíduos que de outra forma poderiam parecer aos nossos olhos “desconectados” da realidade acabaram por conseguir estabelecer uma outra forma de conexão que ultrapassa os limites do virtual. É como se o vídeo se tornasse uma nova forma de comunicação através da qual esbatemos as diferenças e se estabelecem conexões.A pergunta que se deve colocar é a de saber como usar esta tecnologia para combater a anomia social, a demissão da vida pública que é típica das sociedades modernas. Do ponto de vista de Wesch, deveremos ter esperança num futuro em que o indivíduo não se desinteresse da discussão pública e da participação cívica mas que seja capaz de dizer “sim, eu interesso-me, eu preocupo-me”.



O terceiro vídeo (Students Helping Students) mostra-nos precisamenteo primeiro d ia de aulas de uma universidade nos Kansas, EUA. Reina um ambiente de camaradagem, partilha, colaboração: nos últimos três anos, os alunos doaram mais de $250.000 para ajudar alunos com dificuldades económicas ou sobre quem se abateu alguma tragédia e que, de outro modo, estariam e risco de abandonar os seus estudos. A própria banda sonora que acompanha ovídeo está disponível para download gratuitamente. Estes indivíduos “interessam-se” e “preocupam-se” com o Outro: fazem parte de uma nova geração, que já não é a geração MTV mas é a geração Youtube.


O último vídeo mostra-nos aquilo que são os nossos estudantes, hoje: as suas motivações, as suas expectativas face à escola, os seus interesses e objectivos, as suas dificuldades. O visionamento deste vídeo leva-nos a questionar se a escola que temos dá resposta a essas expectativas, a esses desejos ou a essas dificuldades. Estamos perante um enorme desafio, que é o de criar uma escola para o século XXI quando ainda estamos arreigados a uma visão da escola típica do século XIX.