Uma reflexão sobre o vídeo de Michael Wesch: A vision of Students today -2007



A frase de Marshall Mcluhan, (1957), famoso pela inovadora ideia da Aldeia Global, pelo estudo das tecnologias e sobre qual o seu impacto na construção da sociedade humana, dá o mote ao início do vídeo, com a seguinte afirmação:

Uma criança dos dias de hoje fica confusa com o ambiente de uma sala de aula, que ainda remonta ao séc. XIX e segundo a qual se pode caracterizar a instituição de ensino baseada na informação escassa, ordenada, estruturada e fragmentada, com as disciplinas bem demarcadas e encaixadas em horários próprios.

Ao abrirmos a porta da sala de uma universidade, de uma escola do Ensino Básico ou do Secundário, certamente que não ficaríamos muito impressionados atendendo ao facto de actualmente, nas nossas escolas, ainda se assistir ao modelo pedagógico centrado no professor/saber, conferindo ao aluno um lugar passivo ou de receptáculo de conhecimentos desprovidos de significado para o seu contexto real.


No vídeo, a porta que se abre para um anfiteatro de cadeiras vazias, mais concretamente para a universidade de Kansas, transmite-nos a sensação do vazio do ensino - aprendizagem, de uma transposição didáctica sem relevância ou do saber instituído a transmitir aos alunos, que embora presentes, num número em média de 115, por cada sala, estarão ausentes dos conteúdos, das leituras que têm que fazer, das páginas que têm que preencher, revelando que algo está errado com o sistema de ensino.

À pergunta - Como é ser-se estudante nos dias de hoje? e partindo de uma sondagem entre os alunos, estão subjacentes respostas que centradas em números dão-nos uma visão da discrepância entre a forma como os estudantes de hoje aprendem e aquilo que precisam de aprender, de acordo com os seus objectivos e expectativas. Face às seguintes informações generalizadas pelos alunos universitários duma turma revela-se que:

  • o tamanho da turma é de 115 alunos
  • só 18% dos meus professores sabem o meu nome
  • completo 49% das leituras que me estão atribuídas
  • dessas leituras só 26% têm relevância para a minha vida
  • gasto centenas de dólares em livros que não chego a ler
  • o meu colega de escola paga mas nem vem às aulas
  • irei ler 8 livros este ano lectivo
  • lêem 2300 páginas da Web por dia
  • e 1281 perfis do facebook
  • por cada semestre irei escrever 42 páginas
  • e mais de 500 páginas de e-mails
  • durmo 7 horas por noite
  • vejo televisão 1 ½ por dia
  • estou online 3 ½ por dia
  • ouço 2 ½ horas de música por dia
  • estou 2 horas ao telemóvel
  • estou durante 3 horas na sala de aula
  • despendo 2 horas por dia a trabalhar
  • despendo 3 horas a estudar
  • o que perfaz 26,5 por dia
  • sou um multi-tasker (tenho que ser)
  • após a licenciatura terei uma divida de 20.000 dólares
  • mais de 1 bilião de pessoas sobrevivem com menos de 1 dólar por dia
  • o meu computador portátil custa mais do que aquilo que algumas pessoas ganham num ano
  • quando me licenciar irei talvez ter um trabalho que não existe hoje
  • completar isto não me irá ajudar a lidar com a guerra, conflitos étnicos…
  • não criei os problemas mas eles são os meus problemas
  • alguns sugeriram que a tecnologia poderá salvar-nos…alguns sugeriram que a tecnologia sozinha poderá salvar-nos
  • estou no facebook durante a maioria das aulas
  • trago o meu portátil para as aulas mas não o utilizo para elaborar trabalhos da escola
  • «o inventor do sistema deveria ser colocado entre os melhores contribuidores para a aprendizagem e a ciência, senão o maior benfeitor da humanidade» Josiah F. Bumstead (1841)

Se as paredes da escola pudessem falar o que diriam? Certamente o mesmo que os alunos têm para dizer dentro dessas paredes e o que eles nos dizem é o que o número elevado dos alunos por turma lhes tira a individualidade, sendo vistos como uma massa humana, uniforme, contribuindo para a falta de estímulo cognitivo e sem vontade de assistir às aulas.

A utilização do computador durante as aulas serve outras práticas que não as relacionadas com aprendizagens adequadas aos objectivos educacionais.

As práticas escolares apontam para a aquisição da informação em vez da mediação das tecnologias em viabilizar dinâmicas de aprendizagem voltadas para a discussão crítica e criativa da informação e não da forma como é transmitida pelo professor sem se questionar a sua pertinência para o quotidiano dos alunos.

A tecnologia digital oferece um vasto mundo de informação utilizada pela geração de nativos digitais, que processam em paralelo a informação, em multi-task, podendo colocar os alunos como construtores activos no processo de aprendizagem. Para isso, torna-se necessário que os alunos aprendam a utilizar a tecnologia não somente para entretenimento ou para se socializarem, mas para criar algo novo, de valor para o mundo, já que todos podem ser produtores.

«some have say that technology can save us …» aponta para a permeabilidade da escola às tecnologias da informação e da comunicação, não para distrair nas aulas mas como forma geradora de conhecimento. A utilização do computador potencia a exploração, a análise dos factos e a criação da informação, que poderá por em causa a informação do magister dixit. As novas tecnologias oferecem a informação que se pretende e de forma instantânea. Potenciam a interacção a nível planetário, mas torna-se evidente a necessidade em adquirir sabedoria para saber quando desligar e partir para o conhecimento e para a reflexão. A preparação para a vida requer uma educação que prepare os indivíduos para a sociedade da informação, que tem por base novas formas de agir, novas formas de relacionamento, novas formas de partilhar e participar. A educação deverá centrar-se no aluno que aprenda adequadamente o uso das tecnologias e preparar-se para criar algo com significado e com sentido para si próprio e para os outros, para partilhar através das tecnologias que poderá produzir.

Resumos dos Vídeos de Michael Wesch
Students Helping Students
Este vídeo foca a colaboração e a importância de se valorizar os aspectos sociais. O relacionamento interpessoal poderá levar à construção de um empreendimento humano, a projectar-se em todos os cenários sociais, direccionando os indivíduos para a participação, para a aceitação e a cooperação com os outros, o que se poderá estender a espaços de aprendizagem.


A vision of students today
Este vídeo aponta para o facto da estruturação da sala de aula estar confinada a um modelo de escola, segundo o qual os alunos ainda fazem aprendizagens de forma tradicional e sem relevância para a sua vida quotidiana. A escola de hoje, à semelhança da escola do séc XIX está mediante um processo linear e unidireccional da transmissão passiva de saberes pelo professor, tornando-se entediante e sem se questionar a sua pertinência para o quotidiano dos alunos.
A questão Como é ser-se estudante nos dias de hoje? Conduz-nos a respostas que apontam para o elevado número dos alunos por turma, sendo vistos pelos professores como uma massa uniforme e indiferenciada, sem individualidade. O vídeo leva-nos às leituras e à elaboração de textos que nada trazem de relevante para os alunos. Estes viram-se na maior parte do dia para a utilização das tecnologias digitais por representarem formas mais atraentes de entretenimento e de socialização- facebook, e-mails- e de chegar mais rapidamente à informação que eles querem. As práticas escolares apontam para a aquisição da informação, para o ensinar em vez do aprender.


A aplicação do computador, no decurso das aulas, serve outros interesses que não os relacionados com o ensino. «The inventor of the system deserves to be ranked among the best contributors to learning and science, if not the benefators of mankind», Josiah F. Bumstead (1841), reconhecendo o impacto e o potencial das novas tecnologias, torna-se necessário que os alunos aprendam a utilizá-las para criar algo novo e significativo, de valor para si e para o mundo. Se a revolução da informação permite viabilizar dinâmicas de aprendizagem voltadas para a discussão crítica e criativa da informação, oferecendo novas formas de interacção e formas de partilhar porque não integrá-las no sistema educativo já que os adolescentes


The machine is us/ing us
Revela as vantagens do texto digital por oposição ao texto de suporte de papel. Enquanto este é linear, o texto digital é flexível, oferecendo a oportunidade de criar hiperligações, com uma possibilidade ilimitada de digitalizar informações e conhecimentos. A Web 2.0, favorecendo uma difusão das redes telemáticas, fornece meios de pesquisa e da criação de informação, conferindo uma autonomia e a possibilidade da participação e de partilha de muitos para muitos, a nível planetário. Abrangendo um campo aberto de assuntos, em todas as áreas culturais, sociais e educacionais, tornando-se viável através das wikis, blogs, a interacção e a partilha em que todos podem proceder à construção de conhecimentos mais específicos e enriquecedores, passando de meros utilizadores a dinâmicos produtores, numa criatividade interactiva. Num mundo de redes digitais, numa dimensão tão vasta de acesso à informação e à construção de novos conteúdos, interessa inferir da importância dos direitos de propriedade intelectual, da identidade, da privacidade, nos domínios da vida pessoal e social; na redefinição das condições e dos recursos humanos, para operar na difusão e gestão do conhecimento. Nós somos a máquina ou a máquina está a usar-nos. A Web 2.0 vem inaugurar um cenário comunicativo sem precedentes onde todos podem ter acesso à sua utilização que não exige grandes conhecimentos.



A escola está a perder relevância para os jovens e o desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação constitui um desafio para os alunos e professores, exigindo uma estratégia de ensino/aprendizagem que implique a eliminação de barreiras procedimentais ligadas ao ensino tradicional, com práticas instrucionistas, pouco flexíveis, oferecendo pouca autonomia ao aluno.


Emergindo a necessidade de uma comunidade de aprendizagem que garanta o individuo à pertença a um grupo e à construção colaborativa de conhecimentos, o uso das novas tecnologias e ferramentas como Delicious, Diigo, Wiki, vem permitir um envolvendo dos jovens num processo activo de colaboração, permitindo-lhes a (re) construção de aprendizagens e de ressignificações.


Mike Wesch defende que a preparação para a vida passa por uma educação que estimule os indivíduos para a sociedade da informação, tendo por base novas formas de agir, novas formas de relacionamento, novas formas de partilhar e participar. A Web 2.0 e os novos media permitem a exploração de novas formas de interacções com os outros bem como novas formas de auto-conhecimento e de estruturas de conversação.


Torna-se fundamental que os adolescentes aprendam a utilizar a tecnologia não somente para entretenimento ou para se socializarem, mas para criar algo novo, colocando-os como produtores em vez de serem simples reprodutores. Os novos meios de comunicação e de informação proporcionados pelas ferramentas da Web 2.0, afiguram-se como permitindo uma interactividade a nível global e dever-se-á promover o seu uso de forma a evitaro «diálogo unilateral» com a máquina, no sentido a um envolvimento social e de conexão com o meio envolvente.


«Educar é estar mais atento às possibilidades do que aos limites», segundo Wesch. Educar é centrar o aluno para a apropriação do computador como uma ferramenta instrucional e para criar ele próprio algo com significado para si e para os outros. Partilhar através das tecnologias é passar do knowledgeable para o knowledge able.


A abordagem construtivista, do novo paradigma da educação, promove novas oportunidades pedagógicas colocando o aluno como agente activo no seu processo de construção do conhecimento, em que este controla, explora e transforma a informação. Para tal, requer - se um professor mais facilitador e menos instructo, mais parceiro de um saber colectivo que compete organizar.


Estaremos a preparar os jovens para este mundo? Como Wesch realça «Let’s do whatever it takes….by whatever means necessary».