Educação e Sociedade em Rede - Actividade 5 - Grupo TETA

Recensão Crítica de quatro vídeos de Michael Wesch

O Autor objecto deste estudo é Michael Wesch. Nesta recensão crítica examinaremos quatro vídeos do autor:

1. The Machine is Us/ing Us (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=NLlGopyXT_g )
2. The Machine is (Changing) Us (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=09gR6VPVrpw )
3. Students Helping Students (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=_npqbMKzHl8 )
4. A Vision of Students Today (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=dGCJ46vyR9o )

1. The Machine is Us/ing Us








O primeiro vídeo (The Machine is Us/ing Us) mostra-nos a evolução da Web desde os primórdios do html até à situação presente, na qual a máquina somos nós: ao clicar num link, ao interagir na internet, tornamo-nos parte da engrenagem. O hipertexto não é apenas a criação de uma ligação entre textos; a internet não é apenas um conjunto de ligações entre textos: a internet conecta pessoas, leva-as a fazer negócios, a comunicar e interagir com outros. Por isso, conclui o autor, teremos de repensar os direitos de autor, a ética e a estética, a governação, a família e o amor, a identidade: quem somos nós?

Este vídeo revela as vantagens do texto digital por oposição ao texto de suporte de papel. Enquanto este é linear, o texto digital é flexível, oferecendo a oportunidade de criar hiperligações, com uma possibilidade ilimitada de digitalizar informações e conhecimentos. A Web 2.0, favorecendo uma difusão das redes telemáticas, fornece meios de pesquisa e da criação de informação, conferindo uma autonomia e a possibilidade da participação e de partilha de muitos para muitos, a nível planetário. Abrangendo um campo aberto de assuntos, em todas as áreas culturais, sociais e educacionais, tornando-se viável através das wikis, blogs, a interacção e a partilha em que todos podem proceder à construção de conhecimentos mais específicos e enriquecedores, passando de meros utilizadores a dinâmicos produtores, numa criatividade interactiva. Num mundo de redes digitais, numa dimensão tão vasta de acesso à informação e à construção de novos conteúdos, interessa inferir da importância dos direitos de propriedade intelectual, da identidade, da privacidade, nos domínios da vida pessoal e social; na redefinição das condições e dos recursos humanos, para operar na difusão e gestão do conhecimento. Nós somos a máquina ou a máquina está a usar-nos. A Web 2.0 vem inaugurar um cenário comunicativo sem precedentes onde todos podem ter acesso à sua utilização sem exigir grandes conhecimentos.

2. The Machine is (Changing) Us






O segundo vídeo (The Machine is (Changing) Us: YouTube and the Politics of Authenticity) mostra-nos Michael Welsch fazendo uma comparação entre as perspectivas de Aldous Huxley e Orwell, acrescentando-lhes Postman para demonstrar que estamos muito longe dos cenários apocalípticos que tinham sido previstos por esses escritores.

Este vídeo é uma gravação da palestra de Michael Wesh sobre os novos media e as novas formas de interacção que emergem no YouTube.
No início da palestra, o autor faz referência a duas obras literárias sobre como a sociedade seria em 1984: "1984" de Orson Wells e "Brave New World" de Huxley. Ao confrontar a visão de uma sociedade controlada pelo Big Brother, onde os livros são banidos e a verdade ocultada à população, com a visão de uma sociedade que consome informação até morrer de tédio, onde os livros são irrelevantes porque ninguém os lê e onde a verdade torna-se irrelevante devido à imensidão de estímulos, Wesch reforça esta última como a mais próxima dos tempos modernos. As pessoas consomem imensa informação, fornecida pelos media, aborrecendo-se até à morte.
Com isto em mente, Wesh apresenta a sua ideia que os media não são apenas ferramentas, mas sim uma ecologia muito própria. Os media, nomeadamente a Televisão, gerem as nossas conversações, os temas de conversa derivam do que foi apresentado nos media, citando inclusive McLuhan "We shape our tools, therefore our tools shape us".

Utiliza o exemplo de um estudo feito por Neil Postman:
Questão: Qual a sua opinião e o que pretende fazer sobre as importantes questões políticas no mundo?
Resposta: " We plan to do nothing!"
Esta resposta reflecte como o público foi moldado e entretido para se tornar indiferente a estas questões.
Para se ter relevância (ou algo se torna relevante de todo) é necessário estar na TV, a exemplo dos milhares de participantes no American Idol. Esta necessidade de atenção, este histerismo cultural resulta, em parte, do sentimento de "desaparecimento social" quando envolvidos numa sociedade controlada pelos media.
É uma herança social dos tempos da Industrialização, em que as pessoas já se sentiam sem sentido de existência e com sentimento de ausência de pertença nas grande cidades e linhas de produção nas fábricas.
Alargando esta perspectiva para à geração dos anos 80's, Wesh retrata a MTV generation como:
  • Materialistas
  • Narcisistas
  • Não são facilmente impressionáveis.
  • Com períodos curtos de atenção focada.

Há uma observação atenta que este comportamento também deriva da necessidade de identidade e como afirmá-la através da TV (ex: o surgimento dos reality shows). Exemplo deste retrato é uma citação apresentada por Wesch:
"In the midst of fabolus array historically unprecendent and utterly mind voggling stimuli…. WHATEVER!"
"Whatever" representa a indiferença como característica dominante da MTV generation.Mas sendo uma geração com muitas oportunidades e informação, porquê a indiferença? Estaremos mesmo a morrer de tédio? E porque têm tanto interesse em aparecer na TV?
É opinião de Wesch que o narcisismo desta geração resulta da oferta personalizada de media (programas) criados por pessoas muitas criativas e com grande investimento monetário, que apenas se destina a satisfazer os desejos dos consumidores de media.
Aqui a expressão "whatever " ganha outra dimensão. Representa uma manifestação do "Quero lá saber…sou o Maior!".
O narcisismo é mais uma revelação da procura de identidade na sociedade actual. A procura do autêntico "eu", como afirma Charles Taylor no seu livro de 1991, "Ethics of Authenticity".
No entanto, existem 2 perigos associados:
  • Modos centrado em si próprio para auto-realização, que provocam dissociação das restantes pessoas.
  • Negação de horizontes de significância, que conduz à fragmentação, resultando em múltiplas pessoas com múltiplas opiniões, não criando um sentido em comum.

Com o surgimento do fenómeno da Web 2.0 e dos novos media, surgiu uma nova oportunidade de explorar e encontrar o autêntico "Eu". Este fenómeno, segundo Wesh, é significante, pois:
  • Nós conhecemos-nos através das nossas relações com os outros.
  • Os novos media criam novas formas de interacção com outros.
  • Os novos media criam novas formas de conhecermos a nós próprios.

Tendo esta opinião em mente, Wesh decidiu desenvolver um estudo com os seus alunos, observando os comportamentos existentes no YouTube: Porque razão pessoas de todo o mundo partilham vídeos e o que caracteriza esta comunidade?
Uma das observações que mais se destacaram foi que as pessoas, ao contrário da filtragem que fazemos da nossa personalidade nas conversas cara a cara, no Youtube não existe esse comportamento. O meio de comunicação passa a ser uma webcam e não uma pessoa. Há como que um desbloqueio da personalidade, uma consciência de si própria mais profunda, por vermo-nos em tempo real, reflectidos digitalmente, embora seja com o intuito de comunicar para milhões de pessoas. A este processo cognitivo chama-se Recognição, processo que envolve uma atitude altamente reflexiva sobre si próprio, por se estar à promover a interacção com outros, mas estando a vermo-nos ao mesmo tempo. Este comportamento é observado nos vários vídeos que Wesch apresenta na palestra, sendo surpreendente observar este comportamento reflexivo em várias pessoas, de diferentes idades.
Devido a este novo media e analisando os comportamentos nele observáveis, Wesh acredita que estamos perante uma inversão cultural. Os indivíduos:
  • Expressam individualismo, mas valorizam a comunidade;
  • Expressam independência, mas valorizam as relações;
  • Suportam a comercialização, mas valorizam a autenticidade.

Há uma forte ênfase na autenticidade individual e liberdade de expressão, comportamentos nem sempre partilhados na esfera dos amigos e família. Como que se existisse uma libertação das suas opiniões, suportada por uma nova forma de comunidade (youtube), criando assim novas formas de auto-conhecimento.
Wesch defende que as pessoas que utilizam os novos media não estão interessados em criar os mesmos tipos de conversação já existentes. Uma interacção não regida pela televisão, mas sim pelos novos media que permitem novas formas de interacção e estruturas de conversação.
Daí Wesch concluir a sua palestra com uma nova referência ao termo "Whatever", antes um simbolismo de indiferença geracional, agora alterado para um movimento de manifestação cultural:
"I care. Let's do whatever it take…by whatever means necessary!"

Uma das ideias centrais desta comunicação é que os media não são apenas instrumentos de comunicação; muito para lá disso, eles são parte integrante da comunicação no sentido em que a sua mudança implica igualmente mudança da comunicação humana. Marshall McLuhan já o tinha dito: “we shape our tools, and thereafter our tools shape us”. A anomia típica das grandes cidades também pode encontrar-se na Web. A anomia é o estado de ânimo do indivíduo que não obedece a quaisquer normas sociais ou à sociedade que tende para a desagregação das suas próprias normas. Durkheim criou este conceito em 1897, na obra “Le Suicide”, para caracterizar o estado de confusão do indivíduo na sociedade moderna, estado esse que provoca irritação e desgosto e levaria ao aumento das tendências suicidárias na época de Durkheim. Wesch faz o paralelismo entre este cidadão moderno confuso e desagregado da sua própria sociedade com o cidadão virtual. O cidadão moderno viu-se transformado num cidadão vulgar, insignificante no meio das moles humanas das grandes metrópoles, e a sua migração para os subúrbios não só não resolveu o problema como o agravou, pois a auto-estrada passou a ser a sua ligação ao “mundo”, tal como a televisão passou a ser a sua ligação à realidade. Mas essa ligação estabelecida através da televisão é unidireccional: a única forma de se fazer ver é estar do lado de lá, “aparecer” na televisão, alcançar os míticos quinze minutos de fama. Por isso é tão importante aparecer no American Idol, ou em qualquer outro programa televisivo, para menorizar a sensação de insignificância.
Actualmente, verificam-se duas tendências: por um lado, a auto-afirmação em detrimento da participação cívica; por outro, a fragmentação das crenças e dos interesses individuais. Nesta incursão filosófica pela análise das relações pessoais, Wesch faz notar que é pela relação com o Outro que nos conhecemos. Ora, se os novos media criam novas formas de nos relacionarmos com os outros, então também a forma como nos conhecemos a nós própris será alterada. E isso tem implicações sobre as noções de identidade e autenticidade.Verifica-se, então, a implosão do contexto, isto é, já não comunicamos simplesmente com outro(s) mas com um engenho, uma máquina (a câmara, o computador, o youtube ou o blogue ou o twitter ou o facebook) que são os meios pelos quais chegamos ao Outro, se é que eles existe ou nos verá. Não existe contexto: sou eu e um Outro imaginário que está por detrás da máquina.Outro aspecto interessante que se verifica na rede é o exacerbar do Eu: o indivíduo filma-se para se ver a si próprio, escreve par si próprio e contenta-se em ver aquilo que filmou e aquilo que escreveu para si mesmo.O facto de nos podermos esconder atrás de um nick (pseudónimo) aliado à distância física que protege as pessoas leva-as a exacerbar igualmente os sentimentos de ódio, com ofensas gratuitas e inflamadas sobre o Outro.Estamos, então, perante uma inversão cultural: paradoxalmente, as pessoas criam comunidades virtuais nas quais dão a conhecer aspectos da sua identidade que não revelam, sequer, aos familiares, como se houvesse mais autenticidade neste anonimato hiper-mediático do que na vida real.Alguns vídeos / comportamentos podem tornar-se virais, como o vídeo “free hugs” que se tornou popular nos mais diversos países, levando desconhecidos para a rua para se abraçarem mutuamente. Qual é, então, o interesse destes comportamentos? Eles mostram-nos como indivíduos que de outra forma poderiam parecer aos nossos olhos “desconectados” da realidade acabaram por conseguir estabelecer uma outra forma de conexão que ultrapassa os limites do virtual. É como se o vídeo se tornasse uma nova forma de comunicação através da qual esbatemos as diferenças e se estabelecem conexões.A pergunta que se deve colocar é a de saber como usar esta tecnologia para combater a anomia social, a demissão da vida pública que é típica das sociedades modernas. Do ponto de vista de Wesch, deveremos ter esperança num futuro em que o indivíduo não se desinteresse da discussão pública e da participação cívica mas que seja capaz de dizer “sim, eu interesso-me, eu preocupo-me”.

3. Students Helping Students








Será que nos preocupammos?
O terceiro vídeo (Students Helping Students) mostra-nos precisamente o primeiro dia de aulas de uma universidade no Kansas, EUA. Reina um ambiente de camaradagem, partilha, colaboração: nos últimos três anos, os alunos doaram mais de $250.000 para ajudar alunos com dificuldades económicas ou sobre quem se abateu alguma tragédia e que, de outro modo, estariam e risco de abandonar os seus estudos. A própria banda sonora que acompanha ovídeo está disponível para download gratuitamente. Estes indivíduos “interessam-se” e “preocupam-se” com o Outro: fazem parte de uma nova geração, que já não é a geração MTV mas é a geração Youtube.
Este vídeo foca a colaboração e a importância de se valorizar os aspectos sociais. O relacionamento interpessoal poderá levar à construção de um empreendimento humano, a projectar-se em todos os cenários sociais, direccionando os indivíduos para a participação, para a aceitação e a cooperação com os outros, o que se poderá estender a espaços de aprendizagem.

4. A Vision of Students Today







Mas quais são esses espaços de aprendizagem?
O quarto e último vídeo aponta para o facto da estruturação da sala de aula estar confinada a um modelo de escola, segundo o qual os alunos ainda fazem aprendizagens de forma tradicional e sem relevância para a sua vida quotidiana. A escola de hoje, à semelhança da escola do séc XIX está mediante um processo linear e unidireccional da transmissão passiva de saberes pelo professor, tornando-se entediante e sem se questionar a sua pertinência para o quotidiano dos alunos.
A frase de Marshall Mcluhan, (1957), famoso pela inovadora ideia da Aldeia Global, pelo estudo das tecnologias e sobre qual o seu impacto na construção da sociedade humana, dá o mote ao início do vídeo, com a seguinte afirmação:
Uma criança dos dias de hoje fica confusa com o ambiente de uma sala de aula, que ainda remonta ao séc. XIX e segundo a qual se pode caracterizar a instituição de ensino baseada na informação escassa, ordenada, estruturada e fragmentada, com as disciplinas bem demarcadas e encaixadas em horários próprios.

Ao abrirmos a porta da sala de uma universidade, de uma escola do Ensino Básico ou do Secundário, certamente que não ficaríamos muito impressionados atendendo ao facto de actualmente, nas nossas escolas, ainda se assistir ao modelo pedagógico centrado no professor/saber, conferindo ao aluno um lugar passivo ou de receptáculo de conhecimentos desprovidos de significado para o seu contexto real.
No vídeo, a porta que se abre para um anfiteatro de cadeiras vazias, mais concretamente para a universidade de Kansas, transmite-nos a sensação do vazio do ensino - aprendizagem, de uma transposição didáctica sem relevância ou do saber instituído a transmitir aos alunos, que embora presentes, num número em média de 115, por cada sala, estarão ausentes dos conteúdos, das leituras que têm que fazer, das páginas que têm que preencher, revelando que algo está errado com o sistema de ensino.
Partindo de uma sondagem entre os alunos, estão subjacentes respostas que centradas em números nos dão uma visão da discrepância entre a forma como os estudantes de hoje aprendem e aquilo que precisam de aprender, de acordo com os seus objectivos e expectativas. Face às seguintes informações generalizadas pelos alunos universitários duma turma revela-se que:
  • o tamanho da turma é de 115 alunos
  • só 18% dos meus professores sabem o meu nome
  • completo 49% das leituras que me estão atribuídas
  • dessas leituras só 26% têm relevância para a minha vida
  • gasto centenas de dólares em livros que não chego a ler
  • o meu colega de escola paga mas nem vem às aulas
  • irei ler 8 livros este ano lectivo
  • lêem 2300 páginas da Web por dia
  • e 1281 perfis do facebook
  • por cada semestre irei escrever 42 páginas
  • e mais de 500 páginas de e-mails
  • durmo 7 horas por noite
  • vejo televisão 1 ½ por dia
  • estou online 3 ½ por dia
  • ouço 2 ½ horas de música por dia
  • estou 2 horas ao telemóvel
  • estou durante 3 horas na sala de aula
  • despendo 2 horas por dia a trabalhar
  • despendo 3 horas a estudar
  • o que perfaz 26,5 por dia
  • sou um multi-tasker (tenho que ser)
  • após a licenciatura terei uma divida de 20.000 dólares
  • mais de 1 bilião de pessoas sobrevivem com menos de 1 dólar por dia
  • o meu computador portátil custa mais do que aquilo que algumas pessoas ganham num ano
  • quando me licenciar irei talvez ter um trabalho que não existe hoje
  • completar isto não me irá ajudar a lidar com a guerra, conflitos étnicos…
  • não criei os problemas mas eles são os meus problemas
  • alguns sugeriram que a tecnologia poderá salvar-nos…alguns sugeriram que a tecnologia sozinha poderá salvar-nos
  • estou no facebook durante a maioria das aulas
  • trago o meu portátil para as aulas mas não o utilizo para elaborar trabalhos da escola
  • «o inventor do sistema deveria ser colocado entre os melhores contribuidores para a aprendizagem e a ciência, senão o maior benfeitor da humanidade» Josiah F. Bumstead (1841)


Se as paredes da escola pudessem falar o que diriam? Certamente o mesmo que os alunos têm para dizer dentro dessas paredes e o que eles nos dizem é o que o número elevado dos alunos por turma lhes tira a individualidade, sendo vistos como uma massa humana, uniforme, contribuindo para a falta de estímulo cognitivo e sem vontade de assistir às aulas.
A utilização do computador durante as aulas serve outras práticas que não as relacionadas com aprendizagens adequadas aos objectivos educacionais.
As práticas escolares apontam para a aquisição da informação em vez da mediação das tecnologias em viabilizar dinâmicas de aprendizagem voltadas para a discussão crítica e criativa da informação e não da forma como é transmitida pelo professor sem se questionar a sua pertinência para o quotidiano dos alunos.
A tecnologia digital oferece um vasto mundo de informação utilizada pela geração de nativos digitais, que processam em paralelo a informação, em multi-task, podendo colocar os alunos como construtores activos no processo de aprendizagem. Para isso, torna-se necessário que os alunos aprendam a utilizar a tecnologia não somente para entretenimento ou para se socializarem, mas para criar algo novo, de valor para o mundo, já que todos podem ser produtores.

«Some have said that technology can save us …» aponta para a permeabilidade da escola às tecnologias da informação e da comunicação, não para distrair nas aulas mas como forma geradora de conhecimento. A utilização do computador potencia a exploração, a análise dos factos e a criação da informação, que poderá por em causa a informação do magister dixit. As novas tecnologias oferecem a informação que se pretende e de forma instantânea. Potenciam a interacção a nível planetário, mas torna-se evidente a necessidade em adquirir sabedoria para saber quando desligar e partir para o conhecimento e para a reflexão. A preparação para a vida requer uma educação que prepare os indivíduos para a sociedade da informação, que tem por base novas formas de agir, novas formas de relacionamento, novas formas de partilhar e participar. A educação deverá centrar-se no aluno que aprenda adequadamente o uso das tecnologias e preparar-se para criar algo com significado e com sentido para si próprio e para os outros, para partilhar através das tecnologias que poderá produzir.

A questão Como é ser-se estudante nos dias de hoje? Conduz-nos a respostas que apontam para o elevado número dos alunos por turma, sendo vistos pelos professores como uma massa uniforme e indiferenciada, sem individualidade. O vídeo leva-nos às leituras e à elaboração de textos que nada trazem de relevante para os alunos. Estes viram-se na maior parte do dia para a utilização das tecnologias digitais por representarem formas mais atraentes de entretenimento e de socialização- facebook, e-mails- e de chegar mais rapidamente à informação que eles querem. As práticas escolares apontam para a aquisição da informação, para o ensinar em vez do aprender.
A aplicação do computador, no decurso das aulas, serve outros interesses que não os relacionados com o ensino. «The inventor of the system deserves to be ranked among the best contributors to learning and science, if not the benefators of mankind», Josiah F. Bumstead (1841), reconhecendo o impacto e o potencial das novas tecnologias, torna-se necessário que os alunos aprendam a utilizá-las para criar algo novo e significativo, de valor para si e para o mundo. Se a revolução da informação permite viabilizar dinâmicas de aprendizagem voltadas para a discussão crítica e criativa da informação, oferecendo novas formas de interacção e formas de partilhar porque não integrá-las no sistema educativo já que os adolescentes passam mais tempo ligados às tecnologias do que a estudar.
Este último vídeo mostra-nos aquilo que são os estudantes de hoje, as suas motivações, as suas expectativas face à escola, os seus interesses e objectivos ou as suas dificuldades. O visionamento deste vídeo leva-nos a questionar se a escola que temos dá resposta a essas expectativas, a esses desejos ou a essas dificuldades. Estamos perante um enorme desafio, que é o de criar uma escola para o século XXI quando ainda estamos arreigados a uma visão da escola típica do século XIX.

Conclusões


Uma das críticas dirigidas a Wesch é que as suas afirmações nada trazem de novo. Já nos anos 70 se criticava a escola tradicional e se fazia remontar os modelos pedagógicos enyão vigentes ao século XIX (1). Também se pode objectar quanto à relevância de algumas das comparações e Wesch: qual é a relevância de os estudantes passarem mais tempo na internet do que a ler livros, ou lerem ainda mais e-mails e perfis no facebook?
Uma outra crítica resulta da necessidade de contextualizar os problemas: 400 ou 500 alunos numa sala são um problema e torna-se pouco provável que o professor saiba o nome de todos os seus alunos, mas esse problea não deixará de existir se simplesmente mudarmos para um grupo no facebook ou adicionarmos todos esses contactos no nosso email.
O certo é que a escola está a perder relevância para os jovens e o desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da comunicação constitui um desafio para os alunos e professores, exigindo uma estratégia de ensino/aprendizagem que implique a eliminação de barreiras procedimentais ligadas ao ensino tradicional, com práticas instrucionistas, pouco flexíveis, oferecendo pouca autonomia ao aluno.
Emergindo a necessidade de uma comunidade de aprendizagem que garanta o individuo à pertença a um grupo e à construção colaborativa de conhecimentos, o uso das novas tecnologias e ferramentas como Delicious, Diigo, Wiki, vem permitir um envolvendo dos jovens num processo activo de colaboração, permitindo-lhes a (re) construção de aprendizagens e de ressignificações.

Por outro lado, a introdução da tecnologia na sala de aula tem as suas desvantagens, para as quais deveremos estar atentos: os assistentes de Wesch distribuídos pela sala durante uma das suas sessões relatam que vários alunos passaram o tempo debruçados sobre os seus iPod, enviando mensagens, lendo o mail ou postando no facebook sem nunca prestar atenção às palavras de Wesch. O mais curioso é que estas são honestas palavras do próprio Wesch (1)!
Mike Wesch defende que a preparação para a vida passa por uma educação que estimule os indivíduos para a sociedade da informação, tendo por base novas formas de agir, novas formas de relacionamento, novas formas de partilhar e participar. A Web 2.0 e os novos media permitem a exploração de novas formas de interacções com os outros bem como novas formas de auto-conhecimento e de estruturas de conversação.
Torna-se fundamental que os adolescentes aprendam a utilizar a tecnologia não somente para entretenimento ou para se socializarem, mas para criar algo novo, colocando-os como produtores em vez de serem simples reprodutores. Os novos meios de comunicação e de informação proporcionados pelas ferramentas da Web 2.0, afiguram-se como permitindo uma interactividade a nível global e dever-se-á promover o seu uso de forma a evitaro «diálogo unilateral» com a máquina, no sentido a um envolvimento social e de conexão com o meio envolvente.
«Educar é estar mais atento às possibilidades do que aos limites», segundo Wesch. Educar é centrar o aluno para a apropriação do computador como uma ferramenta instrucional e para criar ele próprio algo com significado para si e para os outros. Partilhar através das tecnologias é passar do knowledgeable para o knowledge able.
A abordagem construtivista, do novo paradigma da educação, promove novas oportunidades pedagógicas colocando o aluno como agente activo no seu processo de construção do conhecimento, em que este controla, explora e transforma a informação. Para tal, requer - se um professor mais facilitador e menos instructo, mais parceiro de um saber colectivo que compete organizar.

A solução poderá estar, afinal, na alteração de alguns velhos hábitos: se os estudantes estudarem previamente (seja sob que forma for, digital ou não), se fizerem devidamente o seu trabalho de casa, então talvez as aulas possam servir para a orientação dos estudos e para a discussão e aprofundamento dos conteúdos teóricos, e já não para a tradicional transmissão de conhecimentos.
Estaremos a preparar os jovens para este mundo? Como Wesch realça «Let’s do whatever it takes….by whatever means necessary».
(1) http://www.openeducation.net/2008/10/28/a-vision-of-students-today-some-additional-thoughts-from-michael-wesch/